Carta para falar de amor e cds velhos

Que tal ler ouvindo “Canção para você viver mais – Pato Fu“?

Oi. Sei que faz um tempo que a gente não se fala. Na verdade, eu nem sei ao certo se esse ainda é o seu endereço, mas resolvi arriscar. Rua 05, em frente à padaria do João, não é? Lembro do cheiro gostoso de amanhecer, todas as vezes que o pão saía e eu ia buscar, praticamente de pijama.

Sabe, talvez você ache ridícula essa carta. Tudo bem, eu também estou achando. Como quando caí naquela poça d’água esperando você vir me encontrar no cinema. Você riu e me emprestou seu casaco. Ainda sinto o macio dele. Era cinza, não?

Dez anos. Quanta coisa aconteceu desde então. Tá, para que mentir, não é? Não aconteceu nada de extraordinário comigo. Escrevi alguns livros, morei em alguns cantos de vários lugares, alguns por mais tempo que outros. Aquele gatinho marrom que adorava brincar com as suas meias, ele morreu. E eu tenho ainda o cd daquela banda estranha que nunca consigo pronunciar o nome.

E você, como está? Não que eu ache que você irá me responder, mas ouvi dizer que fez aquele mestrado que tanto queria na Europa. Eu sempre achei que você conseguiria isso. Sempre achei que você conseguiria tudo que quisesse na vida. Eu? Sei lá, eu consegui também mas, ao contrário de você, eu nunca achei que fosse possível. Mas uau! Um mestrado, parabéns! Tô feliz por você.

Continuo não bebendo vinho. E adorando receber flores, por mais que sempre me deem rosas e eu ame girassóis. Sempre também é exagero. Recebi duas vezes, em dez anos. E foram rosas, não girassóis. Não conta.

Não sei ao certo porque estou escrevendo essa carta. Talvez, quando eu terminar de escrevê-la, eu rasgue. Mas vamos supor que eu não faça isso. O que será que você vai achar? Gostava dos meus textos, isso eu sei. Mas essa carta, ela é bem diferente. Não tem rima, não tem cadência e talvez não tenha propósito. Mas se der, leia até o fim.

Acho que eu tô escrevendo isso tudo para te dizer que desde que você decidiu ir, você mentiu. Porque você não foi. Eu ainda sinto você em cada passo que dou. No início era muito forte, mas agora eu sinto você como uma brisa leve e gostosa, mas que às vezes traz frio. O frio de não te ter às vezes ainda incomoda. E a verdade é que desde aquele dia, eu tenho buscado fazer tudo que você me falou que gostaria que eu fizesse. Não por você, mas sempre que consigo algo eu penso “nossa, é realmente boa a sensação de conseguir, bem que ele falou”.

No início eu senti muita raiva de você, do destino, do vizinho que ainda colocava rock alto nas madrugadas de terça-feira. Senti raiva até não conseguir sentir mais nada, e aí voltei a sentir amor. Aquele amor que dizem. Aquele amor que deixa livre.

Eu não sei se você casou, ou teve filhos e em um deles colocou o nome de Marley, como o do cachorro do filme, mas foi também por isso que nunca te procurei. Achei que eu não tinha o direito de atrapalhar seus planos. Sua família. Seu mestrado. Ou sei lá mais o que você pudesse ter construído após a sua partida da minha vida.

Espero inclusive que essa carta não te traga problemas. (Ei, suposta talvez esposa, saiba que ele nunca me procurou e eu que sou louca de enviar essa carta. Se você ler antes dele, pode jogar fora, tá?) Mas percebi que não poderia mesmo continuar seguindo sem enviá-la a você.  

Gostaria de te dizer que nem por um segundo, em dez anos, eu deixei de te amar. E que você é a pessoa mais incrível que a vida me deu. E você ter me deixado foi doloroso, mas hoje eu consigo olhar para traz e te agradecer por isso. Porque sua partida tirou tudo de mim. Mas eu precisei preencher esse vazio. E preenchi com um pouco mais de mim. E foi assim que percebi o quanto é gostoso a gente não precisar de ninguém ou de nada para sorrir. É verdade que chorei e a saudade não deixou de existir. Mas saiba que não por mais de alguns dias eu fiquei sem sorrir. Porque o meu sorriso é lindo! Segui com você no coração, mas naquela parte bonita e bem guardada do coração que a gente só acessa para relembrar algo bom. Hoje, dez anos depois, sou mãe de uma menina linda. E tenho um cara do meu lado que não fez mestrado em qualquer parte do mundo, mas que a qualquer parte do mundo ele só teria ido se comigo. Queria te agradecer por tudo. Até por ter desistido de mim. O que é uma pena, afinal. Porque eu ainda sou considerada a rainha dos cafés filtrados bem feitos. E porque de verdade eu iria para qualquer canto ver você realizar qualquer sonho, grande ou não. Mas que bom que a vida me deu alguém que sabe fazer isso como ninguém. Espero que ela tenha te dado uma boa parceira de cafés. É isso.

Um beijo.

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